Postagens

As acerbas palavras que com dor

As acerbas palavras que com dor  Fendido têm-te o lhano e ressentido Peito, não são malícias de Cupido, Mas, antes, são de mim mui grave error; E, pois, se por cruel é conhecido O de vermelha seta atirador, Quão pior serei eu de causador Da chaga que tua alma tem ferido? Mas se a mim me restar 'inda perdão (Se é que o há a quem alma tão sincera Magoa – quão terríbil transgressão!), Não me deixes sofrer a dura espera, Que, se a mim já não há mais redenção, 'Inda resta lançar-me à morte fera.

Se me beijasse a Morte n'alva face

Se me beijasse a Morte n'alva face, Exaurindo-me o fôlego da vida; E se minh'alma fosse então subida Aonde o Rei Celeste Se encontrasse; E se a mim, de clemente, facultasse O Grão Senhor Que a Terra tem regida  Que eu pudesse a lembrança mais querida Escolher porque em eterno desfrutasse; Quantas vezes pudesse escolheria Ao tempo regressar quando ardorosa Amavas-me qual nunca fora amado; Quando os beijos me davas de bom grado, Jurando-me, em carícias, maviosa Que nem a Morte a nós separaria.

Por que de Febo esperar ridente

Por que de Febo esperar ridente Amenos raios com que aviva o dia, No vão aguardo de lograr tardia A calidez d'outrora agora ausente; E por que fim fazer no breu vigia, Da longa noite as horas paciente Contando, de fiado em tão fulgente Lume que rompa esta aflição sombria; Se de Apolo fulgor não há bastante A quem luziram olhos teus já tanto, Férvida lhe acendendo a flama amante; E se a mim, que descrido dou-me ao pranto, Tomaste o lume dantes fulgurante, Levando-me da vida, enfim, o encanto?

O primeiro amor de Pirra

Eis-te, com despreparo, já entrada Em de Amor as incertas, tortas  vias. Ai, que c ’ o inábil corpo não desvias Da flecha de Cupido a ti lançada.   Mas olha, néscia, atenta a teu amado: Vê-lhe a destreza tanta, o jeito presto, Vê com que placidez mantém o gesto Quem em vias de Amor é já versado.   Que ardentes setas podem contra o homem A quem Cupido já mostrou o ardil? Não há mais manhas nem engodo vil Que astutos seduzindo-o enfim o domem.   Tu, porém, tais caminhos encetando, Te perdes logo em trilhas tão falazes; E, enquanto lassa na verdura jazes, Entre as silvas Amor vai-te espreitando;   E, como desatenta te afigura, De súbito a teu peito a flecha lança, Que, tão logo te toca a carne mansa, Arranha, fere, rasga e enfim perfura. Já vai assim furor te acometendo; E, acesa em loucas chamas da ferida, Te atiras à deriva ensandecida, Pelas brenhas de Amor mais te perdendo.   Mas, sendo nos caminhos já experto, Não se perde nos bosques teu querido Nem Cupi...

Se te cantar eu quero a sã beleza

Se te cantar eu quero a sã beleza, As tentativas tenho malogradas; Pois que de ti as ninfas enciumadas Travam-me a pluma, tomam-me a destreza. Veem dos verdes olhos a pureza Maior ser que a da água em que, banhadas, O canto a mim ocultam, provocadas De te não alcançarem a nobreza. Mas por certo de invídia têm razão, Se fulgem mais as douras tranças tuas Que as áureas com que Febo acende o dia. E verso, no silêncio, qual faria, Senão este que canta as zangas cruas Com que de tua graça prova dão?

Não te abismes

Não te abismes se agora, em estranho modo, faço Fechar-se minha face em tão firme apatia; Pois, se tu vês de amor o meu semblante escasso, Com ardor 'inda te quer como outrora queria. Se fogem olhos meus amiúde dos teus, É que em dolente peito os miro em demasia; E se vem prontamente após saudar-te o adeus, É que, em tardando, a dor não mais eu velaria. Ainda que meu vulto a ti vejas alheio, Não vês o quanto aguardo, em maçante meu dia, Nutrindo n ’ alma um v ã o e descabido anseio, Voltares-me com canto ameno que diria: "Perdoa-me, ó amor, não sei o que me deu, Sorri, que serei tua enquanto fores meu."

Antes a Verdade

Cravada em peito nosso, adaga austera há, Que as cruas veras dita estando a nós alheia; E, pois que não se prosta ao que o homem parvo anseia, Há sempre de feri-lo em úlcera tão má. Bebe, assim, da mentira o vão cálice já, Porque alegre-se a carne em ter vil suco em veia, Cujo méleo dulçor as feições lhe clareia E adormece-lhe a dor em prazeres que dá. Contudo, da quimera o embuste é não mais que acro, E em gozo tão mendaz se oculta atroz ardil, Que mais lhe agrava a chaga ao passo que o entorpece. Da verdade, então, faz tua única messe, Ou te hás de perder, ao real sendo hostil, Quando extinto enfim for o falaz simulacro.