Não te abismes

Não te abismes se agora, em estranho modo, faço
Fechar-se minha face em tão firme apatia;
Pois, se tu vês de amor o meu semblante escasso,
Com ardor 'inda te quer como outrora queria.

Se fogem olhos meus amiúde dos teus,
É que em dolente peito os miro em demasia;
E se vem prontamente após saudar-te o adeus,
É que, em tardando, a dor não mais eu velaria.

Ainda que meu vulto a ti vejas alheio,
Não vês o quanto aguardo, em maçante meu dia,
Nutrindo nalma um vão e descabido anseio,
Voltares-me com canto ameno que diria:

"Perdoa-me, ó amor, não sei o que me deu,
Sorri, que serei tua enquanto fores meu."

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