Antes a Verdade

Cravada em peito nosso, adaga austera há,
Que as cruas veras dita estando a nós alheia;
E, pois que não se prosta ao que o homem parvo anseia,
Há sempre de feri-lo em úlcera tão má.

Bebe, assim, da mentira o vão cálice já,
Porque alegre-se a carne em ter vil suco em veia,
Cujo méleo dulçor as feições lhe clareia
E adormece-lhe a dor em prazeres que dá.

Contudo, da quimera o embuste é não mais que acro,
E em gozo tão mendaz se oculta atroz ardil,
Que mais lhe agrava a chaga ao passo que o entorpece.

Da verdade, então, faz tua única messe,
Ou te hás de perder, ao real sendo hostil,
Quando extinto enfim for o falaz simulacro.

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